Gildo Pífaro não se cansa em desempenhar tarefas infames. Recrutado que foi pela Rainha de Copas, responsabilizou-se pela apresentação dos estudantes das escolas da Terra do Nunca nas festividades cívicas de “viva o rei”. Coube-lhe a insalubre tarefa eugenista de escolher a dedo os rostinhos mais belos dos quatro cantos da ilha para desfilar diante do trono. Pobre Gildo Pífaro... Dada sua própria aparência aleijada por tantos anos de pesadas cargas de tarefas inglórias, reconhecia (apenas nos cantos mais escondidos da parca consciência), que ele próprio não poderia compor a trupe de belos e belas e lembrava sombriamente dos grandiosos desfiles fascistas que vira na tv com toda a galhardia de indumentárias, rostos angelicais e corpos esculpidos para a produção milimetrada de um espetáculo que enchesse os olhos dos expectadores que, diferentemente de Gildo Pífaro, não tinha consciência de que naquele império eles jamais participariam do acontecimento comemoratório senão como meros ‘espiadores’: eram todos feios demais, desgrenhados demais, povo demais.Mas, Gildo Pífaro, calhorda que era, cumpria à risca suas tarefas sem questionamentos de qualquer ordem e, ao final, locupletava-se em aplausos ao seu próprio trabalho. Bom mesmo era ser amigo do Rei.
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