quarta-feira, 28 de outubro de 2009

GILDO PÍFARO E A CRISE DE CONSCIÊNCIA

Gildo Pífaro estava cansado. Todas as noites, ao deitar sua atormentada cabeça sobre o travesseiro, o sono fugia para não encarar os pensamentos cortantes e as lembranças doídas de todas as humilhações sofridas e friamente disfarçadas. Este já era o segundo rei a quem servia e, por mais que aumentassem suas responsabilidades e cobranças advindas, permanecia na confortável posição de, noite após noite, ajoelhar-se para tirar as botas dos pés do monarca.

Gildo Pífaro tinha a certeza de que o posto que ocupava agora o distanciava, em autoridade, do papel de bufão desempenhado para o rei anterior. Fora alçado ao cargo de quase-secretário-do-ajudante-mor-do-olheiro-oficial-da-coroa-real mas, para desgosto próprio, continuava sendo um bufão aos olhos do povo. Trazia em si a certeza de ser um Cisne visto como um pato.

Gildo Pífaro, emocionado com sua própria desgraça, derramava algumas lágrimas de crocodilo sobre o cetim do travesseiro caríssimo que adquirira com suas últimas ‘trinta moedas’ de pagamento. E, entre uma volta e outra do calor da insônia, Gildo Pífaro lembrou do tempo em que sonhava com um mundo mais justo; de um tempo em que rezava com honestidade ao seu deus; do tempo em que prometera lutar pelo bem comum; e lembrava como, com extrema covardia, abandonara tudo pelo seu próprio bem-estar.

Gildo Pífaro resolveu, então, que na manhã seguinte abriria mão de todo o conforto adquirido com a função de lambe-botas extra-oficial e se libertaria daquela situação jogando na cara do rei uns bons desaforos.

No dia seguinte, Gildo Pífaro galhardou-se todo com seus paramentos de autoridade oficial e dirigiu-se à sala do Rei para o seu grande dia de libertação: iria falar tudo o que pensava do bonachão e de suas ridículas ordens, do mau tratamento dispensado ao povo e ao reino e cuspiria de volta todas as humilhações às quais fora submetido nos últimos anos.

Chegando às portas do salão real, Gildo Pífaro foi anunciado para, em seguida, sentar-se nas poltronas de espera e, após longas horas em que seu ódio aumentava pelo desprezo dispensado à sua pessoa, finalmente foi autorizado a comparecer à presença do rei. Aproximando-se do trono, Gildo Pífaro pôde ver que o soberano passara todo o tempo a jogar palavras-cruzadas enquanto ele esperava horas a fio por uma simples palavra.

E, no momento em que sua ira forçava-lhe a garganta com o palavrório explodindo na língua, o rei levantou levemente o olhar em sua direção e disse-lhe:
-Gildo Pífaro! Que bom que chegou. Estou com uma coceirinha na sola do pé e só você sabe coçar...

E esticou o pé real sob a mesa.

Gildo Pífaro, em seu momento de glória naquele dia, imediatamente respondeu:
- É pra já, alteza.

E atirou-se sob a mesa para cumprir seu papel.

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