segunda-feira, 9 de novembro de 2009

GILDO PÍFARO E O RETRATO

Gildo Pífaro estava convencido de que precisava mudar a imagem que a corte tinha dele. Desde que assumira suas novas responsabilidades (investido que fora no imponente cargo de faz-tudo-real) desejava ser tratado com mais respeito pela nobreza.


E Gildo Pífaro perdeu noites e mais noites de sono imaginando uma maneira de se fazer respeitar na Terra do Nunca. E não é que, do nada, teve a mirabolante idéia de mandar pintar vários retratos seus trajando a pomposa indumentária de autoridade real e exigiu dos pintores que os retratos deveriam mostrar a imponência da sua figura ao lado do trono.


Chegado o grande dia de conhecer o resultado das obras encomendadas, Gildo Pífaro fez organizar um grandioso banquete e convidou toda a nobreza para refestelar-se ao som de violinos, sopranos, tenores e barítonos contratados para dar glamour ao momento em que ele, finalmente, teria sua grandiosidade reconhecida através da imortalização de sua imagem.


Iniciada a festa, nobres e autoridades bailavam pelo salão que ostentava, ao centro, as três obras devidamente cobertas para serem vistas em alguns momentos. E Gildo Pífaro teve a brilhante idéia de realizar uma votação para que fosse escolhida a melhor das imagens. Já ia alta a noite quando Gildo Pífaro fez parar a música e anunciou, em alta voz, que o momento da apreciação era chegado. E descerrou as cortinas sobre as obras.


O coro dos convidados foi uníssono:


-Oh!!!!!!!!!!!!


- Como ficaram lindos os tronos!


- Escolhamos a terceira obra! É a mais bela e graciosa de todas!


E, para desespero de Gildo Pífaro, foi eleito o retrato em que o trono real aparecia garboso (num pequeno detalhe) atrás do manto real do Rei que, dobrando-se sobre a própria barriga, gargalhava ante as piruetas realizadas pelo eterno bobo-da-corte.


E Gildo Pífaro recolheu-se, naquela tormentosa noite, aos seus aposentos para lamentar mais uma tentativa frustrada de obter reconhecimento entre aqueles que julgava seus iguais.


Esquecia ele que, havendo alcançado as graças de todos os reis da Terra do Nunca no papel de bufão, jamais seria visto de outra forma. Pois uma vez bufão, sempre bufão. Ou isso, ou ser descartado. E não se conformava jamais com a beleza do trono.

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