quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

GILDO PÍFARO E O GONGO

Gildo Pífaro andava ensimesmado com a ausência do Seu-Rei. Desde que Seu-Rei partira para o Spa de verão que Gildo Pífaro não encontrava espaço na corte para demonstrar suas aptidões acrobáticas que tanto faziam gargalhar a sua majestade. E o vice-rei, governante honorário, não era dado a ladear-se por bajuladores.

Agora que chegava a hora do retorno de Seu-Rei, Gildo Pífaro rodeava os preparativos da corte para receber, com pompa e circunstância, o soberano da Terra do Nunca. Mas, apesar de rodear, a nobreza não o incluía na fila do beija-mão. E Gildo Pífaro odiava a cada um daqueles bajuladores por darem a si próprios (e apenas a si) o direito de bajular mais que ele e, assim, serem mais vistos por Seu-Rei.

Gildo Pífaro perdeu noites e mais noites de sono pensando em uma maneira de roubar a cena no tão aguardado dia e queria prestar uma homenagem maior a Seu-Rei. E descobriu uma maneira de o fazer.

No grandioso dia do ‘beija-mão’, Gildo Pífaro postou-se na sacada da sala do trono numa posição estratégica em que poderia ser visto tanto pelos plebeus, quanto pela nobreza e, assim, Seu-Rei ficaria muito feliz pela honraria que lhe era feita, dando o devido reconhecimento ao antigo bufão palaciano. Então, munido de um improvisado gongo, aguardava a entrada real para fazer soar seus atabalhoados acordes.

Tão logo Seu-Rei adentrou a sala real, Gildo Pífaro se pôs a pular, gritar, e baquetear o gongo. Fez uma algazarra infernal que a todos chamava a atenção. Seu-Rei, cuja visão da sacada era bloqueada pela multidão de nobres a beijar-lhe as mãos, indagava:

- Mas quem faz tanto barulho assim neste momento sublime?

E o povo, distante do acontecimento burlesco e curioso com a figura que quase se atirava para o pátio pulando como um bode descontrolado, perguntava:

Quem é aquele descontrolado?

E todos, sem exceção, respondiam em uníssono:

- Não é ninguém; é só o bôbo da corte!



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